Sobre: Experiências de bordo

Eaí, como estão as coisas na terra da garoa?

Faz um tempo já que eu estou querendo te escrever sobre isso, mas nem sei por onde começar. Não sei se por não conseguir encontrar as palavras certas mesmo depois de fazer 5 rascunhos, ou pelo simples fato de que eu mesma ainda não digeri a informação.

Você sabe que quando vim pra cá a única certeza que eu tinha é que ficaria na Alemanha por pelo menos 4 meses, tempo carimbado no meu primeiro visto de estudante. No meu coração eu sempre soube que queria vir pra cá e hoje agradeço a Deus por aquelas três tentativas anteriores de intercâmbio terem fracassado. Obviamente que naquela época eu chorei como criança e fiquei revoltada com o mundo, pensando em como as coisas poderiam ser injustas às vezes. Mas depois de todos os caminhos percorridos, agora eu sei que tudo me direcionou para esse momento.

Semana passada fui ao consulado pedir a renovação do meu visto e eles me deram dois anos. Zwei Jahre, dizia no papel que assinei. São dois anos para poder morar aqui, estudar e trabalhar um pouco. Zwei Jahre, como se diz em alemão.

Não sei como essa notícia vai ser recebida aí, mas eu espero que com a mesma alegria que eu a recebi aqui há alguns dias atrás.

Até agora eu sinto que ainda não entendi direito o que está acontecendo, você com certeza conhece essa sensação. Ver um dos seus maiores sonhos virando realidade assim é surreal, está além de todas as expectativas.

Já dizia Chorão¹ em uma frase que uso com frequência: “Cada escolha, uma renúncia, isso é a vida”.

Eu sei que escolher me mudar pra cá é também renunciar estar com minha família e amigos diariamente. É renunciar ouvir meu idioma nativo em todas as esquinas e poder comer minhas comidas preferidas quando bem entender. É renunciar o abraço quentinho e as risadas gostosas perto das pessoas que eu já conheço tão bem.

Mas eu sei também, acima de tudo, que escolher não vir pra Alemanha ou não ficar aqui, seria renunciar tudo pelo qual eu batalhei. Seria como pegar os sonhos que vêm sendo moldados há 10 anos (Zehn Jahre!) e simplesmente desistir, atitude que particularmente não combina comigo. Escolher ficar no meu conforto em São Paulo, seria renunciar a aventura de começar a vida do zero em um lugar novo, com um idioma totalmente diferente e com pessoas diferentes. Seria renunciar a maior felicidade que já senti desde que me entendo por gente.

Hoje eu entendo que a bolsa de Coimbra não rolou porque na real eu nunca quis ir pra Portugal. Sempre quis Alemanha, mas achando que era difícil demais tentei outra coisa. Hoje eu entendo porque as duas tentativas seguintes pra Alemanha também não deram certo. Naquela época eu senti meu coração tão sufocado, numa tristeza de alma que chegava a doer no corpo. Mas agora eu sei que não estava preparada pra vir e que ainda tinha muita coisa pra acontecer no Brasil antes que eu estivesse pronta pra mudança.

Bom, três anos depois das tentativas frustradas, aqui estou. Com a permanência de residência de dois anos no país que escolhi pra chamar de meu. Abracei o idioma que tanto amo e estou me abrindo para as novas experiências, me cobrindo de tolerância para lidar com tudo de diferente que vier pela frente.

Aqui estou eu, numa tarde ensolarada de Berlin, sentada no Treptower Park, bebendo um Club Mate² feliz da vida. Sonhando acordada (como sempre) e imaginando como essa cidade vai me surpreender nos próximos anos.

Renunciei muitas coisas, mas meu coração nunca esteve tão feliz…

Liebe Grüsse aus Deutschland,

Ana

¹Chorão (1970-2013), vocalista da banda Charlie Brown Jr. em um trecho da música “Lutar pelo que é meu”.
²Bebida típica berlinense (mate com gás)

Escrito por Ana

Ana Carolina, 22 anos, formada em Turismo pela ECA/USP. Mascote da turma desde que se conhece por gente e atrapalhada de nascença, sempre foi sonhadora e teimosa (no bom sentido), com um pézinho (ou dois) nas nuvens. Completamente apaixonada por viagens, largou trabalho e estabilidade para ir atrás daquilo que lhe faz feliz e morar no país que faz seus olhos brilharem desde os 12 anos de idade. Natural de São Paulo, atualmente mora em Berlin, Alemanha. O lema que guia sua vida vem do latim: "Memento Vivere, Memento Mori"

1 Comment

Tatiana Ribas

Carol, estou super feliz com a sua conquista, Jesus te abençoe ricamente, e aproveita esse lugar, extrai tudo de belo que ele possa te dar, um beijo em seu ❤️!

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